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ORTOGRAFIA

1. Quanto à ortografia, procedi de modo inverso ao teu. Atacaste-a pel’A Lanterna e adotaste-a em público. Eu defendi-a em público mas não a adotei. Por quê? Preguiça, incapacidade. Acho que deve ser dificílima para mim. Ter de aprender de novo, na minha idade, isso é duro. E há ainda uma razão estética. Acho razoabilíssimo que se escreva, por exemplo, “estética”; mas acho fidalgo, cheiroso, escreve-la à antiga, com aquele inútil “h” a flanar no meio da palavra. Tenho paixão pelo “h”. dá-me idéia duma letra nobre, de muita raça, com avô barão rapinante nas Cruzadas. Só trabalha quando quer, e só para modificar o som de outras letras. Age por ação de presença. O “n”, se o “h” lhe surge na frente, mija-se todo e fica “nhe”. E fora de casos assim, o “h” só aparece nas palavras por puro esporte, por uma espécie de parasitismo – para arejar-se, ou para exibir-se quando puxa fila, como em “Homem”. E o que dá dignidade ao Homem é o “H”. Imagine se o Gonçalves Viana propusesse mudar-nos para “Omem”. Até eu, daqui, ajudava a linchá-lo.
Adotas a reforma desse Viana? Se eu puder decorar regras é possível que faça o mesmo – apenas para acompanhar o movimento, não que a ache bonita. Boa, sim, é. Ou então persistirei na antiga, contribuindo para vitória da nova com o criar os filhos nelas. (1:329)
2. Nossos “imortais” faineantes, esquecidos de que a ortografia não era para uso exclusivo deles e sim de milhões de mortais que têm o que fazer, complicaram a grafia das palavras mais simples com acentos que de nenhum modo se justificam. Até o pobre verbo haver, no tempo “ha” que desde que nasceu foi grafado assim, passou imbecilmente a “há”. Por quê? Haverá possibilidade dessa palavra ser pronunciada de duas maneiras? Esse negócio de acentos assume para nós mortais um aspecto econômico que ainda não foi estudado. Talvez que a expansão do Império Britânico tenha como um dos fatores o lucro de tempo decorrente de não haver na língua inglesa acentos. Abro ao acaso uma tradução francesa dos “Essays” de Macaulay e numa página conto 78 acentos; essa mesma página Macaulay a escreveu sem um só. Talvez o tempo que os franceses perderam no século 17 e 18 em enfeitar de sinaizinhos as palavras haja sido a razão de os ingleses terem chegado primeiro a tantas terras que foram pegando.
Revoltado contra os acentos acadêmicos, usei do meu prestígio na Editora Nacional para uma guerra à excrescência, e consegui que a empresa editasse centenas de milhares de livros com a “desacentuação” exemplificada no livro que remeto como amostra. E não sei de uma só criança que, lendo-o, sinta falta das pulguinhas suprimidas. (4:30-31)
3. Não posso compreender a razão dos acentos. É coisa que berra contra todo o progresso moderno de fixação dos sons articulados por meio de sinais gráficos. E agora que cada vez mais se expande a escrita a máquina, o acento chega a tornar-se um trabalho inútil dos que dão prejuízo em dinheiro ao país. Se fosse possível o cálculo, assombraria a conta de quanto os povos de língua inglesa ganharam em tempo – e pois em dinheiro – com a supressão integral do acento. Não existe uma só palavra inglesa que se grafe com essas excrescências inúteis – e a língua deles é a mais rica e dúctil de quantas se desenvolveram no mundo.
Memórias, escreve você. Perde tempo erguendo a mão do papel para meter a cunha no o. Sem a cunha haveria meios de se pronunciar de outra maneira essa palavra? (12:78-79)
4. Depois da tremenda revolução ortográfica da Emília, o Brasil ficou envergonhado de estar mais atrasado que uma bonequinha e resolveu aceitar as suas idéias. E o governo e as academias de letras realizaram a reforma ortográfica. Não saiu coisa muito boa, mas serviu. Infelizmente cometeram um grande deslize: resolveram adotar uma porção de acentos absolutamente injustificáveis. Acento em tudo! Palavras que sempre existiram sem acentos e jamais precisaram deles, passaram a enfeitar-se com esses risquinhos. O coitado do “há” do verbo haver, passou a escrever-se com acento agudo – “há”, sem que nada no mundo justificasse semelhante burrice. E introduziram acentos novos, como o tal acento grave (`), que, por mais que a gente faça, não distingue do acento agudo (‘). O “a” com crase passou a “à”, embora conservasse exatamente o mesmo som! E apareceu até um tal trema ( “), que é implicantíssimo. A pobre palavra “freqüência”, que toda a vida foi escrita sem acento nenhum, passou a escrever-se assim: “freqüência”!...
Emília danou.
- Não quero! Não admito isso. É besteira da grossa. Eu fiz a reforma ortográfica para simplificar as coisas, e eles com tais acentos estão complicando tudo. Não quero, não quero e não quero.
Quindim interveio.
- Você tem razão, Emília. A tendência natural duma língua é para a simplificação, por causa da grande lei do menor esforço. Se a gente pode fazer-se perfeitamente entendida dizendo, por exemplo, “tísica”, por que dizer “phthisica” como nos tempo da ortografia etimológica? A forma “tísica” entrou na língua por efeito da lei do menor esforço. Mas a tal acentuação inútil vem contrariar essa lei. Em vez de simplificar, complica. Em vez de exigir menor esforço, exige maior esforço. Logo, é um absurdo.
- Mas é obrigatório hoje escrever-se assim, com dez mil acentos – observou Pedrinho.
Quindim não concordou.
- Est modus in rebus – disse ele. – A língua é uma criação popular na qual ninguém manda. Quem a orienta é o uso e só ele. E o uso irá dando cabo de tosos esses acentos inúteis. Note que os jornais já os mandaram às favas, e muitos escritores continuam a escrever sem acentos, isto é, só usam os antigos e só nos casos em que a clareza exige. Temos, por exemplo, “fora” e “fôra”. O acento circunflexo serve para distinguir o “fora” advérbio do “fôra” verbo. Nada mais aceitável que esse acento no O . O que vai acontecer com a nova acentuação é isso: as pessoas de bom senso não a adotam e ela acaba sendo suprimida. O uso aceita as reformas simplificadoras, mas repele as reformas complicadoras.
Emília ficou radiante com as explicações de Quindim e pôs em votação o caso. Todos votaram contra os acentos, inclusive Dona Benta, a qual declarou peremptoriamente:
- Nunca admiti nem admitirei imbecilidades aqui em casa. (24:155-156)