ADQUIRA ESTE DICIONÁRIO IMPRESSO

Você pode adquirir este dicionário impresso através do seguinte site:

http://www.clubedeautores.com.br/book/33715--DICIONARIO_DA_TEORIA_LITERARIA_E_ESTETICA_DE_MONTEIRO_LOBATO





Mostrando postagens com marcador escritores. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador escritores. Mostrar todas as postagens

ESCRITORES

1. Bilac perguntou ao Heitor de Morais por que motivo eu lhe fugia (isto é, por que o não incensava) e achou-me "esquisito". Acostumou-se o grande poeta ao coro perpétuo de "Ohs!" da rodinha do Estado. Os literatos célebres lembram-me os políticos que jamais caem, como o Rodrigues Alves. Estes espantam-se duma oposiçãozinha; aqueles não admitem essa coisa linda que é uma pequenina animadversão gratuita. Porque têm um nome do tamanho dum bonde amarelo e moram no andor da apoteose, acham inadmissível que um ignaro anônimo tenha a preguiça do rapaz‚ e por higiene fuja ao beija-mão. (2:144)
2. O que me increpas ao estilo é certo. Reconheço-o e é deliberadamente que sorvo as brutezas de Camilo. Esse galego soa a carne crua numa terra em que, a avaliar pelo "amarelão" do estilo comum, os escritores só se alimentam de marmelada branca. Em todas as literaturas eu procuro sempre o carnívoro — os Kiplings, os Menckens, os Gorkis — e ponho os alfenins de banda: Pierre Loti, Catulle Mendes e mais mimos de Vênus. Meu regime dietético é dos cloróticos: Ferro Bravais, bifes vermelhos, coisa bem azotadas. Evito farinhas. O fim em vista é mineralizar o Verbo para ver se não morro da tísica mesentérica do "estilo brasileiro", para o qual devo ter predisposição congenial: "Colhe hoje mais uma primavera no jardim risonho da sua preciosa existência, etc." O estilo nacional, morno e sorna, revê capilé com goma, xarope de melancia, mingau de araruta.
Camilo é o estilo estadulho. Dá porradas geniais! Kipling é o estilo White Label. Enebria depressa. Gorki é vodka. Derruba. E nós? Alencar é capilé com água Florida, bebido em "copo de leite". Macedo é capilé com canela, bebido em caneca de folha. Bernardo Guimarães é capilé com arruda, bebido em cuia. Coelho Neto é capilé com Grécia, bebido em ânfora de cabaça. Machado de Assis é capilé refinado, filtrado, puríssimo, bebido pela taça da cicuta de Sócrates. Afrânio é capilé com ácido fênico. Ruy é... Mentira! Ruy não é capilé. Euclides também não é — mas se fosse, seria capilé com geodésia. Grandes ou pequenos, bons ou maus, em todos nós o capilé perce; como transparecem em todos nós, socialmente, as taras vindas naquela nau de Tomé de Souza que nos abasteceu a estirpe com 400 degredados e 40 jesuítas. (2:162-163)
3. Recebi a sua de 14, com os retratos... que entusiasmo, meu Deus! remédio para curá-lo é um só: Chegar até aí, jantar com vocês na ponta do quebra-mar e... decepcioná-los! O melhor da festa é sempre, sempre, sempre, esperar por ela. Os escritores são grandes e interessantes vistos através de sua obras. De perto, nas pessoas meu Deus! São como bestas e vulgares! Eu tinha uma fã que perdia a fala cada vez que se encontrava comigo em qualquer parte. Resolvi curá-la. Mostrei-me como sou e ela... não só nunca mais perdeu a fala ao ver-me como nunca mais quis saber de mim. Com você, o Aramis e a turma lobatífera vai se dar o mesmo. Vocês almoçam-me ou jantam-me na ponta do quebra-mar e...
—_ "Que decepção, hein, Aramis? É um cretino como todos os outros", e no túmulo desse Lobato idealizado, que tanto te entusiasma, depositarás a florzinha amarela da desilusão! (4:238)
4. Em matéria de escritores, temo-los de duas categorias: a dos necessários e a dos inúteis. Uns revelam o país a si próprio, bem vendo, bem sentindo e bem reproduzindo os estados d'alma e de corpo da brasileira coisa e da brasileira gente; outros tomam o tempo dos ocupados com uma arte pela arte singularmente pulha.
Uns constroem deveras uma literatura: fixação exata do momento étnico, cósmico e mental. Outros bizantinizam. Cronistas, às vezes brilhantes do omini re, a varridela saneadora do tempo não deixará da agitação desses escritores uma isca sequer. (8:48)
..............................................................................................

Ver: LITERATURA BRASILEIRA 1 (10:3-9)
POETISA (6:187-188)
ROMANCE NO BRASIL (5:47-51)
ROMANCISTAS 1 (7:228)