Numa história geral da caricatura a história da nossa terá meia página, se tanto. E explica-se a mingua. Enquanto colônia, era o Brasil uma espécie de ilha da Sapucaia de Portugal. Despejavam cá quanto elemento antissocial punha-se lá a infringir as Ordenações do Reino. E como o escravo indígena emperrasse no eito, para aqui foi canalizada de África uma pretalhada inextinguível. Até a vinda de D. João o Brasil não passava de índio e mataréu no interior e senhores, feitores e escravos nos núcleos de povoamento da costa, muito afastados entre si e rarefeitos. Em toda essa fase o Brasil não dá de si nenhum bruxoleio de arte.
E assim vai até que um tranco de Napoleão dá com o rei de Portugal para cima do Rio de Janeiro. Apesar da pressa com que arrumou as malas, D. João VI trouxe todos os ingredientes para uma boa implantação aqui: fidalgos de orgulhosa prosápia, nobres matronas, almotacés, estribeiros-mores, açafatas da rainha, vícios de bom tom, pitadas de arte e ciência e mais ingredientes básicos duma monarquia preposta a pegar de galho.
Infelizmente nenhum caricaturista acompanhou o transporte de tanta caricatura para as terras do Novo Mundo. Insanável lacuna! Que maravilhosos temas a época fornecia!...(...)
Se hoje temos Voltolino, Yantok e tantos mais e sobretudo esse J. Carlos que encheu toda uma época e pôs a arte da caricatura no Brasil a par da dos velhos países cultos, devemo-lo à grande idéia d'O Malho, de satisfazer as ingenuidades estéticas do poviléu.
Mas há uma coisa que impede o crescimento e a plena floração da nossa caricatura: a restrição cada vez maior da liberdade de crítica ao governo. E sem liberdade da mais ampla a caricatura fenece como a gramínea que tem sobre si um tijolo. Perde a clorofila. Descora.
Dá um esparguinho branco...(16:11...21)
CARTA
1. O gênero "carta" não é literatura, é algo à margem da literatura... Porque literatura é uma atitude - é a nossa atitude diante desse monstro chamado Público, para o qual o respeito humano nos manda mentir com elegância, arte, pronomes no lugar e sem um só verbo que discorde do sujeito. O próprio gênero "memórias" é uma atitude: o memorando pinta-se ali como quer ser visto pelos pósteros - até Rousseau fez assim - até Casanova.
Mas cartas não...Carta é conversa com um amigo, é um duo - e é nos duos que está o mínimo de mentira humana. Ora, como da minha conversa escrita com Rangel se salvasse quase todas as cartas, tive ensejo, um dia de lê-las - e sinceramente achei que constituíam uma "curiosidade editorial" de bom tamanho. E que teriam interesse para o público justamente porque ao escrevê-las nunca me passou pela mente que jamais fossem dadas a público. Mas vacilei. Dá-las ou não? Tão íntimo tudo aquilo. Tantas perversidadezinhas para com os amigos, tanta piada para cima do Nogueira - o companheiro que no fundo mais admirávamos... Além de que isso de cartas é sapato de defunto. Depois que o autor morre é que elas aparecem.
Pensei, pensei, pensei. Por fim, vá lá. Tenho sérias dúvidas sobre se estou ainda vivo - e se as cartas saírem com a minha revisão de semi-vivo, apresentar-se-ão podadas de muitas inconveniências que um semi-morto já não subscreve. (1:l7-18)
2. Por que usas etiquetas comigo? Tuas cartas vivem cheias de "faça o favor", "se não for incômodo", e mais fórmulas da humana hipocrisia. São tropeços. Quando te leio, vou dando topadas nisso. Faça como eu. Seja bruto, chucro, enxuto. (1:52)
3. ...De modo que essas três irredutíveis instituições humanas - o vizinhato, o cão e o namorado noturno - interpuseram-se como uma trindade de aço entre mim e a ciência do Paula Batista, e com tal prepotência que me vi forçado a afastar o poço da sabedoria e matar o tempo com uma quarta instituição humana: conversar por escrito. (1:72)
4. Apontas-me, como crime, a minha mistura do "você" com "tu" na mesma carta e às vezes no mesmo período. Bem sei que a Gramática sofre com isso, a coitadinha; mas me é muito mais cômodo, mais lépido, mais saído - e, portanto, sebo para a coitadinha. Às vezes o "tu" entra na frase que é uma beleza; outras é no "você" que está a beleza - e como sacrificar essas duas belezas só porque um Coruja, um Bento José de Oliveira, um Freire da Silva, um Epifanio e outros perobas "não querem"? Não fiscalizo gramaticalmente minhas frases em cartas. Língua de cartas é língua em mangas de camisa e pé-no-chão - como a falada. E, portanto, continuarei a misturar o tu com você como sempre fiz - e como não faz o Macuco. Juro que ele respeita essa regra da gramática como os judeus respeitavam as vestes sagradas do Sumo Sacerdote. Logo, o dever nosso é fazer o contrário.
(1:79-80)
5. Já notaste como é mais vivo o estilo das cartas, do que o de tudo quanto visa aparecer em livro ou jornal? Acho maravilhoso o prime saut das cartas. Eu queria ver em todos os teus livros o elance primesautier da última carta que me mandaste. A caraça do público, a "feição" do jornal, os moldes do editor, sempre antepostos aos nossos olhos quando "escrevemos para imprimir", acanham-nos a expressão, destroem-nos a alerteza do élan. Eu, por mim, só lia cartas e memórias como as do Casanova. (2:54)
6. Que idéia sinistra a tua, de publicarmos as minhas cartas! Seria dum grotesco supremo, porque cartas só interessam ao público quando são históricas ou quando oriundas de, ou relativas a, grandes personalidades. No nosso caso não há nada disso: não são históricas e nós não passamos de dois pulgões de roseira - eu, um pulgão publicado; você, um pulgão inédito. O interesse que achas nas tais cartas é o interesse da coruja pelas peninhas dos seus filhotes. Formam um álbum de instantâneos de nossa vida. Mas o público quer penas de pavão, plumas de avestruz ou aigrettes de garça: não quer peninhas de filhote de coruja. Todos iriam rir-se de nós, além de que estão cheias de maldadezinhas endereçadas a amigos e conhecidos, sobretudo por mim, que tenho a mania de arrasar tudo, a começar por mim mesmo. Não. Varra com a idéia. (2:198-199)
7. Fui mexer na minha tremenda papelada epistolar e tonteei. É coisa demais. É um mundo. Pus a Ruth separando aquilo e classificando por ordem de data - é o primeiro passo. O segundo será separar certas cartas, como as tuas, que são as mais numerosas; e como por milagre tenho aqui as minhas, estou vendo que desse passo vai sair coisa grossa e talvez muito interessante. Desconfio, Rangel, que essa nossa aturada correspondência vale alguma coisa. É o retrato fragmentário de duas vidas, de duas atitudes diante do mundo - e o panorama de toda uma época. Literatura, história e mais coisas. (2:351)
8. Heitor// Recebi a tua carta de 12, realização de um "projeto velho" e fico-lhe grato pelo te lembrares do exilado das Areias. Tem razão de ser a tua quizília pelo escrever cartas, veículo pequenino demais quando se tem muito a dizer e embaraçoso quando não há assunto. A carta é boa e fácil de se escrever quando há um negócio bem positivo a tratar e por isso o ideal delas me parece que são as cartas comerciais. Que gosto sentar-se à mesa sem vacilações, sem pensar, lançar no papel um bem caligrafado Am.º e Snr., para início de meio palmo de literatura sólida e sucinta! Infelizmente o destino não reserva para nós essa boa delícia... Mas vamos ao que serve. (3:100)
Mas cartas não...Carta é conversa com um amigo, é um duo - e é nos duos que está o mínimo de mentira humana. Ora, como da minha conversa escrita com Rangel se salvasse quase todas as cartas, tive ensejo, um dia de lê-las - e sinceramente achei que constituíam uma "curiosidade editorial" de bom tamanho. E que teriam interesse para o público justamente porque ao escrevê-las nunca me passou pela mente que jamais fossem dadas a público. Mas vacilei. Dá-las ou não? Tão íntimo tudo aquilo. Tantas perversidadezinhas para com os amigos, tanta piada para cima do Nogueira - o companheiro que no fundo mais admirávamos... Além de que isso de cartas é sapato de defunto. Depois que o autor morre é que elas aparecem.
Pensei, pensei, pensei. Por fim, vá lá. Tenho sérias dúvidas sobre se estou ainda vivo - e se as cartas saírem com a minha revisão de semi-vivo, apresentar-se-ão podadas de muitas inconveniências que um semi-morto já não subscreve. (1:l7-18)
2. Por que usas etiquetas comigo? Tuas cartas vivem cheias de "faça o favor", "se não for incômodo", e mais fórmulas da humana hipocrisia. São tropeços. Quando te leio, vou dando topadas nisso. Faça como eu. Seja bruto, chucro, enxuto. (1:52)
3. ...De modo que essas três irredutíveis instituições humanas - o vizinhato, o cão e o namorado noturno - interpuseram-se como uma trindade de aço entre mim e a ciência do Paula Batista, e com tal prepotência que me vi forçado a afastar o poço da sabedoria e matar o tempo com uma quarta instituição humana: conversar por escrito. (1:72)
4. Apontas-me, como crime, a minha mistura do "você" com "tu" na mesma carta e às vezes no mesmo período. Bem sei que a Gramática sofre com isso, a coitadinha; mas me é muito mais cômodo, mais lépido, mais saído - e, portanto, sebo para a coitadinha. Às vezes o "tu" entra na frase que é uma beleza; outras é no "você" que está a beleza - e como sacrificar essas duas belezas só porque um Coruja, um Bento José de Oliveira, um Freire da Silva, um Epifanio e outros perobas "não querem"? Não fiscalizo gramaticalmente minhas frases em cartas. Língua de cartas é língua em mangas de camisa e pé-no-chão - como a falada. E, portanto, continuarei a misturar o tu com você como sempre fiz - e como não faz o Macuco. Juro que ele respeita essa regra da gramática como os judeus respeitavam as vestes sagradas do Sumo Sacerdote. Logo, o dever nosso é fazer o contrário.
(1:79-80)
5. Já notaste como é mais vivo o estilo das cartas, do que o de tudo quanto visa aparecer em livro ou jornal? Acho maravilhoso o prime saut das cartas. Eu queria ver em todos os teus livros o elance primesautier da última carta que me mandaste. A caraça do público, a "feição" do jornal, os moldes do editor, sempre antepostos aos nossos olhos quando "escrevemos para imprimir", acanham-nos a expressão, destroem-nos a alerteza do élan. Eu, por mim, só lia cartas e memórias como as do Casanova. (2:54)
6. Que idéia sinistra a tua, de publicarmos as minhas cartas! Seria dum grotesco supremo, porque cartas só interessam ao público quando são históricas ou quando oriundas de, ou relativas a, grandes personalidades. No nosso caso não há nada disso: não são históricas e nós não passamos de dois pulgões de roseira - eu, um pulgão publicado; você, um pulgão inédito. O interesse que achas nas tais cartas é o interesse da coruja pelas peninhas dos seus filhotes. Formam um álbum de instantâneos de nossa vida. Mas o público quer penas de pavão, plumas de avestruz ou aigrettes de garça: não quer peninhas de filhote de coruja. Todos iriam rir-se de nós, além de que estão cheias de maldadezinhas endereçadas a amigos e conhecidos, sobretudo por mim, que tenho a mania de arrasar tudo, a começar por mim mesmo. Não. Varra com a idéia. (2:198-199)
7. Fui mexer na minha tremenda papelada epistolar e tonteei. É coisa demais. É um mundo. Pus a Ruth separando aquilo e classificando por ordem de data - é o primeiro passo. O segundo será separar certas cartas, como as tuas, que são as mais numerosas; e como por milagre tenho aqui as minhas, estou vendo que desse passo vai sair coisa grossa e talvez muito interessante. Desconfio, Rangel, que essa nossa aturada correspondência vale alguma coisa. É o retrato fragmentário de duas vidas, de duas atitudes diante do mundo - e o panorama de toda uma época. Literatura, história e mais coisas. (2:351)
8. Heitor// Recebi a tua carta de 12, realização de um "projeto velho" e fico-lhe grato pelo te lembrares do exilado das Areias. Tem razão de ser a tua quizília pelo escrever cartas, veículo pequenino demais quando se tem muito a dizer e embaraçoso quando não há assunto. A carta é boa e fácil de se escrever quando há um negócio bem positivo a tratar e por isso o ideal delas me parece que são as cartas comerciais. Que gosto sentar-se à mesa sem vacilações, sem pensar, lançar no papel um bem caligrafado Am.º e Snr., para início de meio palmo de literatura sólida e sucinta! Infelizmente o destino não reserva para nós essa boa delícia... Mas vamos ao que serve. (3:100)
CLÁSSICOS
— O Visconde de Castilho foi dos maiores escritores da língua portuguesa. É considerado um dos melhores clássicos, isto é, um dos que escreveram em estilo mais perfeito. Quem quiser saber o português a fundo, deve lê-lo — e também Herculano, Camilo e outros.(...)
— Meus filhos — disse Dona Benta —, esta obra está escrita em alto estilo, rico de todas as perfeições e sutilezas de forma, razão pela qual se tornou clássica. (25:144-145)
— Meus filhos — disse Dona Benta —, esta obra está escrita em alto estilo, rico de todas as perfeições e sutilezas de forma, razão pela qual se tornou clássica. (25:144-145)
CONCURSO LITERÁRIO
Recebi também uma carta do Samuel Soares, que se dá com você. Quer um absurdo - a minha intervenção para que os juizes dum tal concurso dêem atenção ao livro dele. Não só não sei quem são esses juizes, como isso de tentar influir juizes não é coisa que Témis admita. Ele que espere e se resigne à sorte. Os julgamentos dos concursos literários são feitos mais ou menos pelo sistema do "cara ou coroa". Se ele tiver sorte, ganhará. (4:229)
CONTO
1. Sou partidário do conto, que é como o soneto na poesia. Mas quero contos como os de Maupassant ou Kipling, contos concentrados em que haja drama ou que deixem entrever dramas. Contos com perspectivas. Contos que façam o leitor interromper a leitura e olhar para uma mosca invisível, com olhos grandes, parados. Contos-estopins, deflagadores das coisas, das idéias, das imagens, dos desejos, de tudo quanto exista informe e sem expressão dentro do leitor. E conto que ele possa resumir e contar a um amigo - e que interesse a esse amigo. (1:243-244)
2. Nunca escrevi contos e não sei se me será coisa possível. O que eu considerava contos, se releio agora me sabem a crônicas com pretensões humorísticas. No fundo não sou literato, sou pintor. Nasci pintor, mas como nunca peguei nos pincéis a sério (pois sinto uma nostalgia profunda ao vê-los - sinto uma saudade do que eu poderia ser se me casasse com a pintura), arranjei, sem nenhuma premeditação, este derivativo da literatura, e nada mais tenho feito senão pintar com palavras. Minha impressão predominante é puramente visual. Ora, sendo eu assim, vejo-me em apuros com os teus empurrões para a realização imediata.
Vou tentar - mas bem desesperançado. Se até aqui não produzi um só conto que mereça tal nome, isso demonstra minha inaptidão para esse gênero literário. (1:251-252)
3. Ando frio com o conto. Acho um campo muito restrito, coisa só para os grandes mestres. Engano pensar que por ser mais curto seja mais fácil, mais próprio de principiante. Este deve começar com um Rocambole e só depois de bem maduro fazer um continho. A propósito, lembro-me dum plumitivo de Pindamonhangaba, que me abordou um dia e contou da sua idéia de publicar um livro de pensamentos. E explicava: "Nós, principiantes, devemos começar pelo princípio, pelo primeiro grau; coisinhas leves, pensamentos; depois sonetos; depois contos e por fim novelas e romances". Ele andava com uma trena no bolso. (1:265)
4. Mas da idéia à realização o caminho é áspero. Talvez você tirasse do assunto a coisa que imagino. Eu não me atrevo - porisso reduzi o romance a conto - um conto que é apenas um frouxo programa do romance.
Toda gente considera o conto um gênero leve - e tomam o leve como sinônimo de fácil. Mas note que em todas as literaturas só emerge do conto um Maupassant para dez romancistas. Mesmo assim, achas que é possível meter Maupassant na plana de Balzac, Dostoievsky e Tolstoi? Não creio. É mister fazer bom e grande e o contista, embora alcance o bom, não pode chegar ao grande. É ourivessaria, não é arquitetura. Cellini fez o Perseu, mas faria o Taj Mahal? O meu Bocatorta conto é pobre maquete em gesso dum terrível monumento. Miniatura.
Viver um ano, dois, três, dentro dum romance, construindo um romance, como Flaubert. Que fôlego exige! Que saúde - e nós somos uns doentinhos. (1:280-281)
5. Li os Oitenta Contos n'O Dia. Interessante, mas frouxo no fim. Não acaba de modo satisfatório para o leitor e para Apolo. Fecho de conto é como fecho de soneto; é o tudo! É onde está o busilis. Porque o conto inteiro não passa dum preparo para o fecho - e se depois de cacetearmos o leitor com o tal preparo lhe dermos fecho desapontante, ele diz como cá a dona Nenê: "Outro ofício!" (2:234)
6. Outro conselho que darei para contos é não fabricá-los na cabeça, e sim colhê-los na vida. Quem cria os bons contos não somos nós, é a Grande Mestra - a Vida. Nós apenas os captamos e os pomos em forma literária. Dá-se com eles o mesmo que com os brilhantes. O garimpeiro acha-os, e depois o lapidador os transforma em maravilhosos solitários. Faça assim. Garimpeie. Pegue os contos da vida que passarem ao seu alcance - e bote-os em forma artística, sem visar coisa nenhuma senão o bom acabamento da obra. Faça assim que quando menos pensar estará com uma linda coleção de contos vivos, pois só são vivos os criados pela vida. (4:43)
7. Confundem-se geralmente os dois gêneros, e muito cronista por aí, dos mais perfeitamente caracterizados, jura que é contista. O verdadeiro conto não passa de uma narração incisiva e bem travada em todas as suas partes de modo a dar relevo a um fato, cômico ou trágico. Antigamente definiam-no como a narrativa agradável de coisas imaginárias. Com o advento do naturalismo ele ampliou o quadro e admitiu dentro mais coisas do que permitia a concepção antiga. Inda assim exige como essencial a narrativa em progressão na qual tudo tenda para o desenlace final, imprevisto e sugestivo. O conto nunca deixar de ser anedótico. É mister que o leitor, acabada a leitura, possa recontá-lo a terceiro, isto é, apresentar rapidamente o esqueleto, o arcabouço anedótico. Dos nossos contistas poucos seguem esta orientação. Deixam-se arrastar pelo devaneio, afrouxam a contextura da obra por meio de repetidas digressões, ou de excessivas minúcias descritivas, inúteis para o efeito final. São, em suma, em vez de contistas, cronistas. (10:34-35)
8. Se ainda escrevo de quando em quando, é por hábito, e para desencruar a fita desta máquina. E só escrevo quando o acaso me faz encontrar na rua um diamante bruto entre cascalhos, a que o mundo chama "conto". Quem os faz não é o escritor, sim a vida, como é a natureza que faz os diamantes. O escritor apenas os acha; e depois de achado, se não tem preguiça, toma-o do chão, lapida-o, e engasta-o numa trama de associações lógico-estéticas, que é o anel onde vai figurar o brilhante. (12:57)
9. ― Contos andam aí aos pontapés, a questão é saber apanhá-los. Não há sujeito que não tenha na memória uma dúzia de arcabouços magníficos, aos quais, pra virarem obra d'arte, só falta o vestuário da forma, bem cortado, bem cosido, com pronomes bem colocadinhos. ( 17:67 )
.......................................................................................
Ver: CRIAÇÃO 4 ( 2:137-138 )
CRIAÇÃO 7 ( 2:253-254 )
2. Nunca escrevi contos e não sei se me será coisa possível. O que eu considerava contos, se releio agora me sabem a crônicas com pretensões humorísticas. No fundo não sou literato, sou pintor. Nasci pintor, mas como nunca peguei nos pincéis a sério (pois sinto uma nostalgia profunda ao vê-los - sinto uma saudade do que eu poderia ser se me casasse com a pintura), arranjei, sem nenhuma premeditação, este derivativo da literatura, e nada mais tenho feito senão pintar com palavras. Minha impressão predominante é puramente visual. Ora, sendo eu assim, vejo-me em apuros com os teus empurrões para a realização imediata.
Vou tentar - mas bem desesperançado. Se até aqui não produzi um só conto que mereça tal nome, isso demonstra minha inaptidão para esse gênero literário. (1:251-252)
3. Ando frio com o conto. Acho um campo muito restrito, coisa só para os grandes mestres. Engano pensar que por ser mais curto seja mais fácil, mais próprio de principiante. Este deve começar com um Rocambole e só depois de bem maduro fazer um continho. A propósito, lembro-me dum plumitivo de Pindamonhangaba, que me abordou um dia e contou da sua idéia de publicar um livro de pensamentos. E explicava: "Nós, principiantes, devemos começar pelo princípio, pelo primeiro grau; coisinhas leves, pensamentos; depois sonetos; depois contos e por fim novelas e romances". Ele andava com uma trena no bolso. (1:265)
4. Mas da idéia à realização o caminho é áspero. Talvez você tirasse do assunto a coisa que imagino. Eu não me atrevo - porisso reduzi o romance a conto - um conto que é apenas um frouxo programa do romance.
Toda gente considera o conto um gênero leve - e tomam o leve como sinônimo de fácil. Mas note que em todas as literaturas só emerge do conto um Maupassant para dez romancistas. Mesmo assim, achas que é possível meter Maupassant na plana de Balzac, Dostoievsky e Tolstoi? Não creio. É mister fazer bom e grande e o contista, embora alcance o bom, não pode chegar ao grande. É ourivessaria, não é arquitetura. Cellini fez o Perseu, mas faria o Taj Mahal? O meu Bocatorta conto é pobre maquete em gesso dum terrível monumento. Miniatura.
Viver um ano, dois, três, dentro dum romance, construindo um romance, como Flaubert. Que fôlego exige! Que saúde - e nós somos uns doentinhos. (1:280-281)
5. Li os Oitenta Contos n'O Dia. Interessante, mas frouxo no fim. Não acaba de modo satisfatório para o leitor e para Apolo. Fecho de conto é como fecho de soneto; é o tudo! É onde está o busilis. Porque o conto inteiro não passa dum preparo para o fecho - e se depois de cacetearmos o leitor com o tal preparo lhe dermos fecho desapontante, ele diz como cá a dona Nenê: "Outro ofício!" (2:234)
6. Outro conselho que darei para contos é não fabricá-los na cabeça, e sim colhê-los na vida. Quem cria os bons contos não somos nós, é a Grande Mestra - a Vida. Nós apenas os captamos e os pomos em forma literária. Dá-se com eles o mesmo que com os brilhantes. O garimpeiro acha-os, e depois o lapidador os transforma em maravilhosos solitários. Faça assim. Garimpeie. Pegue os contos da vida que passarem ao seu alcance - e bote-os em forma artística, sem visar coisa nenhuma senão o bom acabamento da obra. Faça assim que quando menos pensar estará com uma linda coleção de contos vivos, pois só são vivos os criados pela vida. (4:43)
7. Confundem-se geralmente os dois gêneros, e muito cronista por aí, dos mais perfeitamente caracterizados, jura que é contista. O verdadeiro conto não passa de uma narração incisiva e bem travada em todas as suas partes de modo a dar relevo a um fato, cômico ou trágico. Antigamente definiam-no como a narrativa agradável de coisas imaginárias. Com o advento do naturalismo ele ampliou o quadro e admitiu dentro mais coisas do que permitia a concepção antiga. Inda assim exige como essencial a narrativa em progressão na qual tudo tenda para o desenlace final, imprevisto e sugestivo. O conto nunca deixar de ser anedótico. É mister que o leitor, acabada a leitura, possa recontá-lo a terceiro, isto é, apresentar rapidamente o esqueleto, o arcabouço anedótico. Dos nossos contistas poucos seguem esta orientação. Deixam-se arrastar pelo devaneio, afrouxam a contextura da obra por meio de repetidas digressões, ou de excessivas minúcias descritivas, inúteis para o efeito final. São, em suma, em vez de contistas, cronistas. (10:34-35)
8. Se ainda escrevo de quando em quando, é por hábito, e para desencruar a fita desta máquina. E só escrevo quando o acaso me faz encontrar na rua um diamante bruto entre cascalhos, a que o mundo chama "conto". Quem os faz não é o escritor, sim a vida, como é a natureza que faz os diamantes. O escritor apenas os acha; e depois de achado, se não tem preguiça, toma-o do chão, lapida-o, e engasta-o numa trama de associações lógico-estéticas, que é o anel onde vai figurar o brilhante. (12:57)
9. ― Contos andam aí aos pontapés, a questão é saber apanhá-los. Não há sujeito que não tenha na memória uma dúzia de arcabouços magníficos, aos quais, pra virarem obra d'arte, só falta o vestuário da forma, bem cortado, bem cosido, com pronomes bem colocadinhos. ( 17:67 )
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Ver: CRIAÇÃO 4 ( 2:137-138 )
CRIAÇÃO 7 ( 2:253-254 )
CONTO POLICIAL
O conto policial está muito bem desenvolvido, e você diz bem: para esse gênero, só a língua daí. E quem sabe se é esse o teu caminho na literatura? Experimente-se. Nós nunca sabemos o que somos, e só o acaso nos revela. Quem sabe se não anda um Van Dyne ou um Conan Doyle oculto dentro de Artur Coelho? Esse gênero literário é o que mais se coaduna com a mentalidade cinematográfica que as fitas americanas criaram no mundo. (4:218)
CRIAÇÃO
1. Nós dois somos o inverso. Somos cracas eternamente grudadas ao pago natal. Somos cogumelos, chapéus-de-sapo, temos o aparelho de locomoção destituído de rodinhas amarelas - libras ou dólares. Somos ápteros. Pingüins! Nossas capacidades embotam-se na mesquinhez da introspeção e na sordidez tacanha de meiozinhos roceiros pífios, onde não há os caracteres fortes e sintéticos que o romance requer para não degenerar em teatrinho do João Minhoca; onde não há dramas - (como imaginar os Átridas em Areias); onde nada há que não seja choco. Desta Areias onde apodreço há três meses nem o gancho dum Shakespeare tirava sequer um título de drama.
Parece-me erro supor que o artista cria independentemente do meio. Meio pífio, artista pífio - obra d'arte pífia. Entre nós, só no Rio há ambiente para alguma arte - e porisso todos os que têm veia para lá acodem. Os que ficam no interior só dão de si água parada. Veja, Rangel - estamos nós dois condenados a ser água parada... Você casou; eu vou casar. Casamento: feixe de raízes que virão agravar ainda mais o nosso chapéu-de-sapismo. E, no entanto, nós temos talento, Rangel - sentimos isso, não? Ninguém sabe, ninguém percebe; talvez nunca desconfie disso o mundo - e no entanto temos talento! (1:176)
2. Vivo esperando a ocasião propícia - essa ilusão. Não há disso. Para quem de fato possui criatividade, todos os momentos são propícios. (1:177)
3. Ando com uma idéia. O Plínio Barreto insiste em que eu escreva um romance para a Revista e estou com idéia de um romance à Dumas ou Paulo de Kock, cheio de ação e diálogos, tudo tão violento que o leitor perca o fôlego. O público anda farto de psicologia e descritivo - a mania dos nossos romancistas atuais - e é a razão de deixá-los às moscas.
Vamos fazer uma coisa: destrinçar o segredo dos eternamente lidos. Depois seguiremos a maneira deles, mas sem nos afastarmos da observação, do real, do verismo que está em nossa essência. (2:127-128)
4. O fim visado num romance ou conto deve ser o máximo de impressão no leitor com o mínimo de meios. É nesse sentido que voga o meu barco. Progrido em "concentração", fujo sistematicamente à "diluição". Prefiro fabricar um martelo de pinga a um barril de garapa azeda. E se a ilusão me não transtorna o senso crítico, creio que estou com a verdade. Que verdade? A deduzida dos melhores capítulos das melhores obras dos melhores autores. Por que melhores autores? Porque mais intensa e duradouramente lidos. A Desforra ganharia se voltasse ao fogo para apertar o ponto. Ficaria metade em volume e o dobro em grau alcoólico.
A humanidade gosta de bebidas fortes - whiskey, rum, kümmel, vodka e mais "fogos líquidos". Já os xaropes e águas panadas, e mesmo a água pura, têm menos fregueses - e com eles ninguém se vicia.
Esta minha observação vai com todas as reservas. Ser assim no caso de aceitares como verdadeiro o meu critério de concentração. Porque em boa crítica todos os gêneros se equivalem, contanto que as obras sejam filhas do talento.
Ando a preparar um livro de contos - assinado Hélio Bruma - coisas antigas refeitas. A refusão limita-se a podas, desgalhes, descascamentos - sempre "des", isto é, concentração. E sinto que ganham com o desbaste. Em regra somos na mocidade extremamente excessivos, folhudos como certas árvores tão enfolhadas que não há ver nelas a beleza maior: o tronco e o engalhamento. (2:137-138)
5. O Presente da Loveling e o urso de Tolstoi são demonstrativos de que para bem dizer é mister escrever pouco e concentrado. A prolixidade é o grande mal. Antigamente eu "borrava" dez tiras e no último "a limpo" obtinha vinte. Hoje borro dez para obter cinco. Podo impiedosamente - e nunca me arrependo. Ontem li no Imparcial uma crítica do João Ribeiro que abunda nestas idéias. (2:140)
6. Quanto ao meu livro, espero completar aí uns quinze contos que me agradem; publico-os na Revista do Brasil e depois de impressos dou-lhes a forma definitiva. Só então arriscarei nos quinze contos os dois contos de réis que me custar a edição. Não tenho pressa nem entusiasmo. Já estou muito longe do assanhamento dos dezoito anos.
Se me seduz uma idéia, ponho-a em conto, mas sempre com muita preguiça. O gosto vem depois, na polidura do borrão, no acepilhamento, no envernizamento. O ato bestial de parir um monstrengo, informe, sujo de sangue e placentas, é o mesmo na arte e na vida feminina. O gosto da mãe começa depois de lavado e vestido o fedelho. (2:147)
7. Lá pelo fim do ano darei livro para o público. Contos. Inda hoje escrevi um. O Rapto. Fui a Campos do Jordão com o Macedo Soares e na estação de Pinda vi um aleijado num carrinho, enérgico, a ralhar com os filhos que o puxam. Senti uma coisa: aquele homem, apesar de aleijado, era o importante e rico da família, o que ganhava a subsistência de todos com as esmolas recebidas. Daí o seu tom mandão, apesar de viver sem pernas dentro do carrinho. Um conto formou-se em minha cabeça, e de volta despejei-o no papel, como quem despeja a bexiga.
Ando cheio de contos lá por dentro. Contos são bernes. A gente pega os germes aqui e ali, e eles ficam germinando, gestando-se em nossos misteriosos úteros subconscientes. Um dia, como o feto das mulheres aos nove meses, eles vêm à tona da consciência e anunciam-se: "Queremos sair!" E então escrevemos aquilo com a facilidade com que as fêmeas dão cria. Os contos fluem da pena para o papel como um "berne de tempo", bem esvurmado. O curioso é que quando produzo um conto, de forma nenhuma o tenho completo na cabeça; tenho lá dentro uma só coisa: a idéia central do conto. Tudo mais se forma no ato de escrever. A primeira frase que lanço determina as demais. N'O Rapto não havia nem rapto nem nada; só havia esta idéia central: um cego que justamente por ser cego era o único da família que ganhava dinheiro e tinha importância. (2:253-254)
8. Não concebo artista capaz de construir obra valiosa, se reside em cidade pequenina, marasmada. Só nos grandes centros há ambiente para a criatividade, uma excitação cerebral contínua, formada pelos mil estimulantes urbanos. Na roça o cérebro assenta, como líquido vascolejado posto a repousar. (7:20)
9. Há duas espécies de obras, a que é feita e a que sai de dentro da gente — que sai no momento próprio, com a naturalidade do feto a espirrar do útero materno depois de nove meses de sono. É sempre difícil e doloroso fazer uma obra; mas é facílimo e delicioso parir uma. O delicioso está no aliviar-nos de qualquer coisa que nos incomoda lá dentro — certas pressões.
Antes de mais nada, porém, meu caro Flávio, devo confessar-te que eu já morri. O que ainda anda cá pelo mundo é apenas a materialização ódica do Lobato morto. Quer que te conte como ele escrevia contos? Isso talvez te ajude no romance, esclarecendo a fisiologia estética. Lobato não fazia contos, paria-os.
Não escrevia deliberadamente; só quando a coisa vinha, quando a bolsa das águas rebentava e não havia remédio senão parir. Ele paria para aliviar-se de subitâneos engravidamentos — sobretudo os causados pela indignação. O seu livro mais interessante seria o em que contasse a obstetrícia da sua literatura.(...)
Estude o teu caso como um bom médico e veja se convém operar ou esperar que o útero o expila naturalmente.
Os engravidamentos do Lobato eram instantâneos. Há-os mais lentos. O que friso é a indispensabilidade do engravidamento e da chegada a termo. Estude-se, Flávio. Seja obstetrício. (12:50-55)
..............................................................................................
Ver: CARTA 5 (2:54)
LINGUA 1 (1:248-249)
Parece-me erro supor que o artista cria independentemente do meio. Meio pífio, artista pífio - obra d'arte pífia. Entre nós, só no Rio há ambiente para alguma arte - e porisso todos os que têm veia para lá acodem. Os que ficam no interior só dão de si água parada. Veja, Rangel - estamos nós dois condenados a ser água parada... Você casou; eu vou casar. Casamento: feixe de raízes que virão agravar ainda mais o nosso chapéu-de-sapismo. E, no entanto, nós temos talento, Rangel - sentimos isso, não? Ninguém sabe, ninguém percebe; talvez nunca desconfie disso o mundo - e no entanto temos talento! (1:176)
2. Vivo esperando a ocasião propícia - essa ilusão. Não há disso. Para quem de fato possui criatividade, todos os momentos são propícios. (1:177)
3. Ando com uma idéia. O Plínio Barreto insiste em que eu escreva um romance para a Revista e estou com idéia de um romance à Dumas ou Paulo de Kock, cheio de ação e diálogos, tudo tão violento que o leitor perca o fôlego. O público anda farto de psicologia e descritivo - a mania dos nossos romancistas atuais - e é a razão de deixá-los às moscas.
Vamos fazer uma coisa: destrinçar o segredo dos eternamente lidos. Depois seguiremos a maneira deles, mas sem nos afastarmos da observação, do real, do verismo que está em nossa essência. (2:127-128)
4. O fim visado num romance ou conto deve ser o máximo de impressão no leitor com o mínimo de meios. É nesse sentido que voga o meu barco. Progrido em "concentração", fujo sistematicamente à "diluição". Prefiro fabricar um martelo de pinga a um barril de garapa azeda. E se a ilusão me não transtorna o senso crítico, creio que estou com a verdade. Que verdade? A deduzida dos melhores capítulos das melhores obras dos melhores autores. Por que melhores autores? Porque mais intensa e duradouramente lidos. A Desforra ganharia se voltasse ao fogo para apertar o ponto. Ficaria metade em volume e o dobro em grau alcoólico.
A humanidade gosta de bebidas fortes - whiskey, rum, kümmel, vodka e mais "fogos líquidos". Já os xaropes e águas panadas, e mesmo a água pura, têm menos fregueses - e com eles ninguém se vicia.
Esta minha observação vai com todas as reservas. Ser assim no caso de aceitares como verdadeiro o meu critério de concentração. Porque em boa crítica todos os gêneros se equivalem, contanto que as obras sejam filhas do talento.
Ando a preparar um livro de contos - assinado Hélio Bruma - coisas antigas refeitas. A refusão limita-se a podas, desgalhes, descascamentos - sempre "des", isto é, concentração. E sinto que ganham com o desbaste. Em regra somos na mocidade extremamente excessivos, folhudos como certas árvores tão enfolhadas que não há ver nelas a beleza maior: o tronco e o engalhamento. (2:137-138)
5. O Presente da Loveling e o urso de Tolstoi são demonstrativos de que para bem dizer é mister escrever pouco e concentrado. A prolixidade é o grande mal. Antigamente eu "borrava" dez tiras e no último "a limpo" obtinha vinte. Hoje borro dez para obter cinco. Podo impiedosamente - e nunca me arrependo. Ontem li no Imparcial uma crítica do João Ribeiro que abunda nestas idéias. (2:140)
6. Quanto ao meu livro, espero completar aí uns quinze contos que me agradem; publico-os na Revista do Brasil e depois de impressos dou-lhes a forma definitiva. Só então arriscarei nos quinze contos os dois contos de réis que me custar a edição. Não tenho pressa nem entusiasmo. Já estou muito longe do assanhamento dos dezoito anos.
Se me seduz uma idéia, ponho-a em conto, mas sempre com muita preguiça. O gosto vem depois, na polidura do borrão, no acepilhamento, no envernizamento. O ato bestial de parir um monstrengo, informe, sujo de sangue e placentas, é o mesmo na arte e na vida feminina. O gosto da mãe começa depois de lavado e vestido o fedelho. (2:147)
7. Lá pelo fim do ano darei livro para o público. Contos. Inda hoje escrevi um. O Rapto. Fui a Campos do Jordão com o Macedo Soares e na estação de Pinda vi um aleijado num carrinho, enérgico, a ralhar com os filhos que o puxam. Senti uma coisa: aquele homem, apesar de aleijado, era o importante e rico da família, o que ganhava a subsistência de todos com as esmolas recebidas. Daí o seu tom mandão, apesar de viver sem pernas dentro do carrinho. Um conto formou-se em minha cabeça, e de volta despejei-o no papel, como quem despeja a bexiga.
Ando cheio de contos lá por dentro. Contos são bernes. A gente pega os germes aqui e ali, e eles ficam germinando, gestando-se em nossos misteriosos úteros subconscientes. Um dia, como o feto das mulheres aos nove meses, eles vêm à tona da consciência e anunciam-se: "Queremos sair!" E então escrevemos aquilo com a facilidade com que as fêmeas dão cria. Os contos fluem da pena para o papel como um "berne de tempo", bem esvurmado. O curioso é que quando produzo um conto, de forma nenhuma o tenho completo na cabeça; tenho lá dentro uma só coisa: a idéia central do conto. Tudo mais se forma no ato de escrever. A primeira frase que lanço determina as demais. N'O Rapto não havia nem rapto nem nada; só havia esta idéia central: um cego que justamente por ser cego era o único da família que ganhava dinheiro e tinha importância. (2:253-254)
8. Não concebo artista capaz de construir obra valiosa, se reside em cidade pequenina, marasmada. Só nos grandes centros há ambiente para a criatividade, uma excitação cerebral contínua, formada pelos mil estimulantes urbanos. Na roça o cérebro assenta, como líquido vascolejado posto a repousar. (7:20)
9. Há duas espécies de obras, a que é feita e a que sai de dentro da gente — que sai no momento próprio, com a naturalidade do feto a espirrar do útero materno depois de nove meses de sono. É sempre difícil e doloroso fazer uma obra; mas é facílimo e delicioso parir uma. O delicioso está no aliviar-nos de qualquer coisa que nos incomoda lá dentro — certas pressões.
Antes de mais nada, porém, meu caro Flávio, devo confessar-te que eu já morri. O que ainda anda cá pelo mundo é apenas a materialização ódica do Lobato morto. Quer que te conte como ele escrevia contos? Isso talvez te ajude no romance, esclarecendo a fisiologia estética. Lobato não fazia contos, paria-os.
Não escrevia deliberadamente; só quando a coisa vinha, quando a bolsa das águas rebentava e não havia remédio senão parir. Ele paria para aliviar-se de subitâneos engravidamentos — sobretudo os causados pela indignação. O seu livro mais interessante seria o em que contasse a obstetrícia da sua literatura.(...)
Estude o teu caso como um bom médico e veja se convém operar ou esperar que o útero o expila naturalmente.
Os engravidamentos do Lobato eram instantâneos. Há-os mais lentos. O que friso é a indispensabilidade do engravidamento e da chegada a termo. Estude-se, Flávio. Seja obstetrício. (12:50-55)
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Ver: CARTA 5 (2:54)
LINGUA 1 (1:248-249)
CRÍTICA
1. E estou transformado na "última palavra" da crítica local, depois duns artigos sobre os trabalhos da minha namorada número 2 - a de função estética. O povo olha-me com uma espécie de terror sagrado, tantas foram as coisas bonitas que, em estilo de atelier de Paris, eu disse na análise dos quadros de Georgina - chama-se Georgina. O meio de sermos admirados pelo povo é não sermos entendidos. Outros artistas da terra, geniozinhos municipais, procuram-me; querem também que eu diga deles coisas incompreensíveis. E o diretor do jornal fez-me a honra de declarar que sou a "única autoridade crítica da terra". Quer dizer que também não me entende.
Ontem houve concerto no teatro e uma comissão veio implorar que do alto da minha Competência eu derramasse a potassa da Crítica sobre as gorduras do Desempenho. Desfiz-me em frases feitas desmerecedoras do meu Mérito e por fim prometi. E acabo de encher cinco tiras com quanto argot musical assimilei em S. Paulo nas críticas do Camarate e do Barjona. Falei em vocalização, registro de voz, euritmia, tonalidades cromáticas e outras pilhérias do caso. Saiu-me coisa tão boa que, relendo-a, eu mesmo não entendi nada. Imagine o sucesso que vai ser! (1:90-91)
2. Na "questão da simpatia" você me respondeu com argumentos ad hominem, o que em crítica não soa bem. Crítica tem que ser ciência, coisa alta, investigação dos fatos literários apenas. Fora disso a Crítica não passa de Impressionismo - ramo da literatura comum. Diz você: "Prefiro Goncourt a Manon". Mas isso não prova a superioridade de Goncourt sobre Manon. Do mesmo modo que se você preferir Silvestre Ferraz a Londres, isso não prova que Londres não seja a capital do Império Britânico. Voltaire preferia Scarron a Shakespeare, o que não impediu que a Posteridade preferisse Shakespeare a Scarron. Quem quer fazer-se crítico deve pôr-se de lado, afastar o subjetivo; e se não for assim, faz literatura em vez de crítica. (1:133)
3. Não concordo com a tua idéia de que todo crítico é um raté da literatura, porque a crítica é um ramo da literatura para o qual certos sujeitos nascem com aptidões especiais. Olhe Taine, Sainte Beuve, Macaulay. Mas não deixa de ser certo que muitos críticos de segunda são literatos fracassados em outros gêneros. Sentem o prazer satânico de se suporem numa sacada, e lá de cima cuspirem nos que passam pela rua. Prazer de juiz sentenciador - mas juiz que se nomeia a si próprio, não é nomeado pelo governo. Vingança, picuínha contra a Fatalidade. "Falhei no meu poema? Pois esperem que vou desancar todos os poemas alheios". O Albalat me parece dos tais. Aquilo de só admitir Homero, e ir filiando um estilo a outro até chegar ao de Homero, aquilo me parece ódio aos seus contemporâneos donos de estilo. (1:278-279)
4. Mas isto de opinião é como nariz, cada qual tem a sua e essa é a boa, como o bom e certo é o nosso nariz. Tu és maior em letras, e eu me saio um tolo com estas pedagogias. Lá tens tua arte; cá tenho a minha. Criticar é sempre dizer: "Eu faria assim". Ao que pode o Autor objetar como o Maneco Lopes: "E que tenho eu com isso?" Por essa razão não me meto a criticar as Águas. Dou apenas a impressão geral que pediste. (2:16)
5. Obrigado pelo oferecimento, mas prefiro que digam de meus livros os estranhos. Aos amigos quero-os calados: já lhes conheço a opinião e também conheço o grau de amizade de cada um. A amizade nunca foi boa crítica. E, entretanto, recorreria a ela se o livro empacasse. Quem quer um filho empacado? Mas não empacou. Fui feliz. Não pedi juízo crítico a ninguém e estou tendo mais e melhor do que realmente mereço. Ainda ontem falou a Gazeta de Notícias em artigo especial, e na véspera havia falado O País. Mando os recortes. De você eu queria uma crítica à nossa moda, confidencial, em carta - sobretudo apontando os defeitos. Um defeito apontado é muitas vezes um defeito corrigido. Já uma qualidade elogiada é quase sempre um vício futuro: o autor passa a apurá-la em demasia e cai no excesso, como o econômico cai na avareza ou o liberal na prodigalidade. (2:179)
6. Estás fazendo a crítica como a quero, à moda do Will Durant, na História da Filosofia. A crítica há de ser assim. A obra dos homens vista à luz da vida dos homens. O sucesso imenso de Durant vem de que pintou conjuntamente a vida dos filósofos e suas filosofias. Interpenetram-se tanto, a vida e as idéias da gente, que não há desligar as duas coisas. (12:49)
7. Tu és um monstro de orgulho, Flávio. Pois queres atacar ao Mário só porque ele exerceu o seu natural direito de crítica? Ele não te insultou, não te ofendeu. Como então revidar? Revidar o quê? Se tiras ao crítico a liberdade de criticar, matas a crítica, Flávio. Faço votos para que a Censura impeça a saída do teu artigo no Casmurro. Fica feio para você danar com um cabra criticamente só porque ele não gostou do teu livro da maneira pela qual querias que ele gostasse. (12:75)
Ontem houve concerto no teatro e uma comissão veio implorar que do alto da minha Competência eu derramasse a potassa da Crítica sobre as gorduras do Desempenho. Desfiz-me em frases feitas desmerecedoras do meu Mérito e por fim prometi. E acabo de encher cinco tiras com quanto argot musical assimilei em S. Paulo nas críticas do Camarate e do Barjona. Falei em vocalização, registro de voz, euritmia, tonalidades cromáticas e outras pilhérias do caso. Saiu-me coisa tão boa que, relendo-a, eu mesmo não entendi nada. Imagine o sucesso que vai ser! (1:90-91)
2. Na "questão da simpatia" você me respondeu com argumentos ad hominem, o que em crítica não soa bem. Crítica tem que ser ciência, coisa alta, investigação dos fatos literários apenas. Fora disso a Crítica não passa de Impressionismo - ramo da literatura comum. Diz você: "Prefiro Goncourt a Manon". Mas isso não prova a superioridade de Goncourt sobre Manon. Do mesmo modo que se você preferir Silvestre Ferraz a Londres, isso não prova que Londres não seja a capital do Império Britânico. Voltaire preferia Scarron a Shakespeare, o que não impediu que a Posteridade preferisse Shakespeare a Scarron. Quem quer fazer-se crítico deve pôr-se de lado, afastar o subjetivo; e se não for assim, faz literatura em vez de crítica. (1:133)
3. Não concordo com a tua idéia de que todo crítico é um raté da literatura, porque a crítica é um ramo da literatura para o qual certos sujeitos nascem com aptidões especiais. Olhe Taine, Sainte Beuve, Macaulay. Mas não deixa de ser certo que muitos críticos de segunda são literatos fracassados em outros gêneros. Sentem o prazer satânico de se suporem numa sacada, e lá de cima cuspirem nos que passam pela rua. Prazer de juiz sentenciador - mas juiz que se nomeia a si próprio, não é nomeado pelo governo. Vingança, picuínha contra a Fatalidade. "Falhei no meu poema? Pois esperem que vou desancar todos os poemas alheios". O Albalat me parece dos tais. Aquilo de só admitir Homero, e ir filiando um estilo a outro até chegar ao de Homero, aquilo me parece ódio aos seus contemporâneos donos de estilo. (1:278-279)
4. Mas isto de opinião é como nariz, cada qual tem a sua e essa é a boa, como o bom e certo é o nosso nariz. Tu és maior em letras, e eu me saio um tolo com estas pedagogias. Lá tens tua arte; cá tenho a minha. Criticar é sempre dizer: "Eu faria assim". Ao que pode o Autor objetar como o Maneco Lopes: "E que tenho eu com isso?" Por essa razão não me meto a criticar as Águas. Dou apenas a impressão geral que pediste. (2:16)
5. Obrigado pelo oferecimento, mas prefiro que digam de meus livros os estranhos. Aos amigos quero-os calados: já lhes conheço a opinião e também conheço o grau de amizade de cada um. A amizade nunca foi boa crítica. E, entretanto, recorreria a ela se o livro empacasse. Quem quer um filho empacado? Mas não empacou. Fui feliz. Não pedi juízo crítico a ninguém e estou tendo mais e melhor do que realmente mereço. Ainda ontem falou a Gazeta de Notícias em artigo especial, e na véspera havia falado O País. Mando os recortes. De você eu queria uma crítica à nossa moda, confidencial, em carta - sobretudo apontando os defeitos. Um defeito apontado é muitas vezes um defeito corrigido. Já uma qualidade elogiada é quase sempre um vício futuro: o autor passa a apurá-la em demasia e cai no excesso, como o econômico cai na avareza ou o liberal na prodigalidade. (2:179)
6. Estás fazendo a crítica como a quero, à moda do Will Durant, na História da Filosofia. A crítica há de ser assim. A obra dos homens vista à luz da vida dos homens. O sucesso imenso de Durant vem de que pintou conjuntamente a vida dos filósofos e suas filosofias. Interpenetram-se tanto, a vida e as idéias da gente, que não há desligar as duas coisas. (12:49)
7. Tu és um monstro de orgulho, Flávio. Pois queres atacar ao Mário só porque ele exerceu o seu natural direito de crítica? Ele não te insultou, não te ofendeu. Como então revidar? Revidar o quê? Se tiras ao crítico a liberdade de criticar, matas a crítica, Flávio. Faço votos para que a Censura impeça a saída do teu artigo no Casmurro. Fica feio para você danar com um cabra criticamente só porque ele não gostou do teu livro da maneira pela qual querias que ele gostasse. (12:75)
CRÍTICO
1. Isto de falar na crítica e dar balanço aos críticos é sintoma de gravidez de livro. Mal a gente pensa em editar-se e já o pensamento nos vai para os tais que declaram ao público se somos gênios, talentos, simples promessas ou cavalgaduras. Que asneira fazer um livro! Arriscar a dolorosas decepções - para que e por quê, santo Deus? (2:109)
2. Chegada hoje tua carta de 14, com o recorte. Deu-me prazer que o 1.º artigo que aparece (ou que me chega) sobre as O.C. seja o teu, e não o de algum crítico profissional. Crítico diz o que convém; já você diz o que sente. (4:219)
3. A incompreensão, meu caro, é o grande mal da vida, e a compreensão a coisa rara, por excelência. Tu compreendes, e me compreendeste: um sujeitinho que trabalha na sua toca, descreve o que viu e sentiu, e no fundo chora das coisas serem como são e não como deveriam ser. Só isso. Tão simples e ninguém acerta. Os críticos comprazem-se em malabarizar sobre as teorias e explicações mais difíceis, que vão procurar longe, esquecidos sempre que a verdade anda-lhes ao pé, caseira e humilde. (13:56)
4. — Que quer dizer críticos? — perguntou Narizinho.
— Críticos são os homens sabidões que nos dizem o que é bom e o que não presta. São os nossos cicerones, ou guias, em assunto de arte. (22:225)
..............................................................................................
Ver: CRÍTICA 7 (12:75)
LÍNGUA 1 (1:248-249)
2. Chegada hoje tua carta de 14, com o recorte. Deu-me prazer que o 1.º artigo que aparece (ou que me chega) sobre as O.C. seja o teu, e não o de algum crítico profissional. Crítico diz o que convém; já você diz o que sente. (4:219)
3. A incompreensão, meu caro, é o grande mal da vida, e a compreensão a coisa rara, por excelência. Tu compreendes, e me compreendeste: um sujeitinho que trabalha na sua toca, descreve o que viu e sentiu, e no fundo chora das coisas serem como são e não como deveriam ser. Só isso. Tão simples e ninguém acerta. Os críticos comprazem-se em malabarizar sobre as teorias e explicações mais difíceis, que vão procurar longe, esquecidos sempre que a verdade anda-lhes ao pé, caseira e humilde. (13:56)
4. — Que quer dizer críticos? — perguntou Narizinho.
— Críticos são os homens sabidões que nos dizem o que é bom e o que não presta. São os nossos cicerones, ou guias, em assunto de arte. (22:225)
..............................................................................................
Ver: CRÍTICA 7 (12:75)
LÍNGUA 1 (1:248-249)
DEFINIÇÃO
Uma das características da boa definição é ser curta. "O homem é um bípede implume". Quando a definição se estende demais, tentando abarcar todos os mobilíssimos pseudopodos da coisa definida, degenera em "noção" ou "tratado" sobre a coisa. Deixa de ser definição, súmula da essência. (...)
O meio prático de pôr em prova uma definição é aplicá-la como um cobertor sobre a coisa definida; se a definição a cobre bem, não deixando nenhum rabinho de fora, é ótima. (5:12-13)
O meio prático de pôr em prova uma definição é aplicá-la como um cobertor sobre a coisa definida; se a definição a cobre bem, não deixando nenhum rabinho de fora, é ótima. (5:12-13)
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