1. A Academia está descendo porque a sina deste país é a descida. O primeiro erro da Academia foi fixar em 40 o número de membros. A única razão para a escolha desse número, ou a dum número qualquer, só pode ser um precedente — a menos razoável de todas as razões. Por capricho dum rei, a França organizou uma academia de 40 — e os nossos pitecos, zás, academia de 40! Mas se a França, por um critério bastante cabo de esquadra, acha que os imortalizáveis devem ser 40, parece-me pretensão bastante pitecóide que um país como o nosso também pretenda tanto. Vem daí que para um Machado de Assis, um Bilac, um Neto, valores reais, torna-se necessário meter lá "enchimentos", como o Dantas e outros. E a própria Francesa recorre a enchimentos — uns marqueses, uns duques, uns prelados. O resultado vai ver, cá na nossa, que acabarão entrando até presidentes da República, porque não há razão para que a um general Dantas Barreto não se siga um Marechal Hermes da Fonseca.. E assim a nossa Academia irá descendo, como tudo mais em nossa terra, até ficar uma panelinha de gente equívoca. Acho, pois, que um homem de letras visceral como você não deve nunca pensar em academizar-se. Muito preferível que de fato te imortalizes com três ou quatro romances a Flaubert, dos sólidos e imperituros. A Academia está ficando a Guarda Nacional da Literatura Indígena. (1:331)
2. A idéia da Academia falhou por birra minha. Não quis transigir com a praxe lá - a tal praxe de implorar votos, e eles são extremamente suscetíveis nesse ponto. Um acadêmico aqui de S. Paulo chegou a dizer: "Se o Lobato me pedisse o voto, claro que eu o daria; mas não pedindo, prefiro votar num pedaço de pau". Ora, não há gosto em fazer parte dum grêmio de mentalidade assim e não pedi nada a ninguém; fiz mais: mandei outra carta desistindo da minha candidatura. O Carlos de Laet não leu essa segunda carta em sessão, alegando que deixaria a Academia mal. "Seria o mesmo que pedir uma moça em casamento e depois escrever que não a quer mais. Todos ficam fazendo mal juízo da honra da "des-pedida". (2:244)
3. Fui convidado para dirigir um jornal e estou pensando. Não me seduz o jornalismo. "E a Academia?" perguntas. Não sei, Rangel. Tenho medo de academias, coisa algemante, e não possuo o "feitio acadêmico", já o disse o Vicente de Carvalho. A Academia é bonita de longe, como as montanhas. Azulinha. De perto... que intrigalhada, meu Deus! Que pavões! Quanta gralha com penas de pavão lá dentro!... E depois, aquela farda! Já figuraste o grotesco do fardão? Eu, metido naquilo! Você, metido naquilo! O Ricardo, metido naquilo, com o espadim de cortar papel à cintura... Não sei por que um acadêmico fardado me lembra caixão de defunto. Os galões, talvez. (2:282-283)
4. Aquela Academia é o maior ninho de intrigalha do mundo. Houve tanta coisa neste meu período de entra-não-entra que fiquei avaliando que inferno é a vida dos desgraçados mortais que se imortalizam com aspas. Um conselho te dou: nunca penses em entrar para lá ou para qualquer outro grêmio. É neles que a gente se desilude totalmente dos homens — que vê como são bestas e mesquinhos. O meio de vivermos em paz neste mundo está no isolamento. Diz o ditado que quem se mete com crianças sai mijado - e sai cagado quem se mete com adultos. (4:139)
5. Recebi a tua última. Não podes entrar para a Academia por causa da "desordem da tua vida urbana"; no entanto, ela admite a frescura dum J. do R.. Os imortais, a contar de Júpiter, sempre viram com indulgência os Ganimedes... Enfim, são brancos, digo imortais, lá se entendem. Eu acho a Academia uma bela coisa, depois que o Alves a enriqueceu. É positivamente um negócio imortalizar-se vitaliciamente. Porque duma maneira ou doutra a renda do legado há de reverter em benefício dos frades da ordem. Talvez isso explique o recrudescimento do avança que se nota agora a cada vaga. (13:40-41)